PROGRAMAÇÃO METABÓLICA NA GESTAÇÃO - O QUE É PRECISO?



Programação metabólica é o termo utilizado para discorrer que os eventos que ocorrem na vida intra-uterina e na lactação de um bebê podem causar impactos na vida adulta do mesmo. Desta forma, o padrão alimentar adotado pela mãe durante a gravidez pode contribuir para a formação dos hábitos e preferências alimentares da criança. Assim, a programação metabólica e os hábitos adotados pela mãe em geral, como alimentação, atividade física e estilo de vida podem causar alterações sobre o código genético do bebê, podendo aumentar ou diminuir as chances de aparecimento de doenças em sua vida.


A gravidez é caracterizada por diversas alterações metabólicas, incluindo aumento da necessidade calórica e de diversos nutrientes que são importantes para a formação e o desenvolvimento do feto. Apesar de haver um aumento do gasto energético materno, a dieta não deve ser hipercalórica, pois pode acarretar no ganho de peso da gestante, podendo aumentar a quantidade de gordura corporal do bebê ao nascer e, assim, colaborando para a obesidade na fase adulta. Uma alimentação equilibrada influencia positivamente nas etapas de desenvolvimento durante a gestação onde ocorre o crescimento fetal.


Como o feto utiliza preferencialmente a glicose como fonte de energia, é recomendado que a gestante adote uma dieta fracionada e evite ficar longos períodos sem se alimentar para evitar casos de hipoglicemia.


É fundamental ter uma alimentação variada, pois tudo que a mãe consome pode influenciar na formação do bebê. Além disso, estas experiências na vida intrauterina podem determinar o paladar do recém-nascido, pois durante o período gestacional o feto é exposto a diversos estímulos sensoriais que são captados através das papilas gustativas que aparecem por volta da 7ª e 8ª semanas, e logo após, todas as informações são conduzidas ao Sistema Nervoso Central. Desta forma, fornecer uma alimentação variada e equilibrada pode facilitar a aceitação de determinados alimentos pelo bebê. Além disso, após o nascimento, muitos nutrientes podem passar para o leite materno e assim, ser entregues ao bebê.

Alguns nutrientes como os fitoquímicos, por exemplo, que são substâncias antioxidantes e, por conta destas propriedades, podem ajudar na prevenção de doenças crônicas como doenças neurodegenerativas e inflamatórias, hipertensão, diabetes e câncer, além de combater os radicais livres e colaborarem para a modulação da imunidade, são de grande importância durante a gestação. Eles são encontrados em alimentos vegetais como frutas, legumes e verduras. Portanto, é importante variar a escolha destes alimentos para obter a maior parte destes fitoquímicos disponíveis.


O aleitamento materno é uma das experiências nutricionais mais precoces na vida do bebê, dando seguimento a nutrição iniciada na vida intrauterina, garantindo um melhor estado de saúde e desenvolvimento psicológico da criança. Amamentar envolve ainda, profunda interação entre a mãe e o bebê, o efeito protetor inicia-se logo após o nascimento, desta forma, é indicado que a amamentação inicie logo após o nascimento.


A amamentação desempenha um papel importante na programação metabólica nos primeiros anos de vida, promovendo a resposta genética, podendo ter impacto positivo ou negativo na vida adulta. O aleitamento materno deve ser estimulado em razão de seus diversos benefícios para a mãe e o bebê. Estudos evidenciam que o aleitamento materno feito de forma exclusiva até os 6 meses de idade possui consistentes associações com a programação metabólica, protege contra doenças infecciosas, como diarréia, meningite bacteriana, otite, infecção do trato respiratório e infecção do trato urinário, favorece o crescimento adequado da criança, reduz riscos de desenvolvimento de doenças cardiovasculares como hipertensão, além de reduzir riscos de obesidade, diabetes, dislipidemias e câncer na infância e na fase adulta.


Outrossim, o aleitamento materno tem papel fundamental na formação do sistema imunológico do bebê, preparando-o para a exposição ao ambiente. Além disso, possui propriedades imunomoduladoras, anti-infecciosas e anti-inflamatórias, é capaz de aumentar a proteção contra patógenos gastrointestinais e respiratórios e estimular a maturação imunológica das superfícies de mucosas.


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), recomenda-se que o aleitamento materno seja exclusivo até os primeiros 6 meses de vida, e que a duração da amamentação seja em média de 2 a 3 anos de idade, sendo o desmame feito de forma gradativa e natural.


Além dos benefícios promovidos ao bebê, a amamentação promove diversos benefícios à mãe e/ou lactante, como: redução dos riscos de câncer de mama e ovário, redução de determinados tipos de fraturas ósseas e auxílio na perda de peso.


Sendo assim, sabe-se que a alimentação da gestante influencia a expressão gênica e o fenótipo do feto, isto é, seu código genético e as características expressadas por estes genes, podendo causar grande impacto na saúde. Através de uma alimentação saudável, acompanhamento nutricional durante a gestação, prática de atividade física, há redução de riscos de desenvolvimento de diversas patologias tanto na gestante quanto no bebê. Observa-se ainda, a importância do aleitamento materno e a introdução adequada da alimentação complementar, pois possuem inúmeros benefícios para a saúde da criança. A alimentação complementar feita de forma inadequada pode causar danos à saúde do bebê, podendo acarretar no desenvolvimento de doenças crônicas na vida adulta.


Referências:


BHUTTA, Zulfiqar A. et al. Evidence-based interventions for improvement of maternal and child nutrition: what can be done and at what cost?. The lancet, v. 382, n. 9890, p. 452-477, 2013.

CHAMPION, Macie L.; HARPER, Lorie M. Gestational weight gain: update on outcomes and interventions. Current diabetes reports, v. 20, n. 3, p. 1-10, 2020.

COX, Jean T.; PHELAN, Sharon T. Nutrition during pregnancy. Obstetrics and gynecology clinics of North America, v. 35, n. 3, p. 369-383, 2008.

DEAN, Sohni V. et al. Preconception care: nutritional risks and interventions. Reproductive health, v. 11, n. 3, p. 1-15, 2014.

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