Creatina e depressão: qual a relação?


A depressão é um transtorno psiquiátrico de elevada prevalência mundial, que acarreta em um alto prejuízo social e econômico, além de ser associada com uma diminuição na qualidade de vida e aumento no risco de suicídio. O tratamento para este transtorno permanece um desafio, uma vez que os tratamentos farmacológicos disponíveis apresentam um efeito terapêutico demorado e muitas vezes ineficiente, além de ser associada a um elevado número de efeitos adversos que contribuem para a diminuição na adesão ao tratamento pelos pacientes.


A creatina é um ácido orgânico sintetizado a partir dos aminoácidos arginina, glicina e metionina. Também é derivado da dieta, principalmente de alimentos que contenham carne e peixe. É sintetizado no cérebro em um grau limitado, mas os níveis cerebrais são mantidos principalmente pelo transporte ativo do soro através do transportador de creatina dependente de sódio e cloreto (SLC6A8).


O papel mais bem caracterizado da creatina no metabolismo energético é como um tampão de energia: a creatina é convertida em fosfocreatina (PCr) pela reação da creatina quinase, armazenando energia em uma forma mais estável do que a fornecida pela adenosina trifosfato (ATP). Também serve como um "transportador de energia", pois sua taxa mais rápida de difusão intracelular em comparação com ATP significa que ela é capaz de transportar energia de maneira mais eficiente de locais onde é sintetizada (por exemplo, mitocôndrias) para locais onde é utilizada (por exemplo , a membrana neuronal) ao longo de um gradiente de concentração.


A creatina quinase é mais amplamente expressa em regiões do cérebro que exibem níveis mais elevados de atividade, como o hipocampo e o cerebelo. Estudos sugerem que a creatina possa atuar no SNC como um neuromodulador, sendo exocitada de maneira dependente de potencial de ação, em vesículas compartilhadas com outros neurotransmissores. Desta maneira poderia modular múltiplos sistemas de neurotransmissão e ativar várias vias de sinalização envolvidas com transtornos psiquiátricos, como a depressão. Neste sentido, foi demonstrado que o efeito tipo-antidepressivo da creatina ocorre de maneira dependente da interação com os receptores cerebrais dopaminérgicos (D1 e D2) e 5-HT1A. O receptor D1 é o mais comum receptor de dopamina no sistema nervoso, está presente no córtex cerebral, no sistema límbico e no corpo estriado. O receptor D2 assim como o anterior está presente no córtex cerebral, no sistema límbico, no corpo estriado, e além desses em comum, está presente na porção ventral do hipotálamo e na hipófise anterior. Ambos, ao serem ativados, atuam auxiliando no controle do humor, emoção e comportamento. Já o receptor 5-HT1A é responsável por modular a atividade dos neurônios serotoninérgicos, sua ativação modula o comportamento emocional e alimentar, funções cognitivas, maturação e diferenciação celular.

As dosagens de tratamento experimental de creatina usadas em estudos sobre depressão em ensaios clínicos variam de 2 a 10 g/dia. Essas dosagens são consistentes com as quantidades diárias de creatina recomendadas para uso como suplemento esportivo durante a fase de manutenção (o protocolo padrão para uso de creatina como suplemento de exercício também inclui uma "fase de carga" inicial de 20 g de creatina por dia durante 5-7 dias) e como tratamento terapêutico para alguns músculos.


Por fim, a ingestão de creatina de fontes de proteína dietética de ocorrência natural é invariavelmente acompanhada por componentes nutricionais adicionais (isto é, vitamina B12, tirosina, triptofano e ácidos graxos), dependendo da fonte específica de proteína animal consumida. Esses nutrientes podem atuar independentemente ou de forma aditiva / sinérgica com a creatina para reduzir o risco de depressão. Além disso, a relação entre a creatina na dieta e o risco de depressão pode ser moderada pela idade e pelo uso de medicamentos antidepressivos / ansiolíticos.


Embora sejam necessárias maiores evidências científicas, os resultados dos estudos recentes apoiam a relação entre a creatina dietética e a depressão. Sendo, a suplementação, capaz de alterar a bioenergética do cérebro, atuando como neuromodulador do sistema nervoso central.


Referências:


PAZINI, Francis Leonardo et al. Efeito protetor da creatina sobre a plasticidade hipocampal em um modelo de depressão. 2017.


KIOUS, Brent M.; KONDO, Douglas G.; RENSHAW, Perry F. Creatine for the Treatment of Depression. Biomolecules, v. 9, n. 9, p. 406, 2019.


BAKIAN, Amanda V. et al. Dietary creatine intake and depression risk among US adults. Translational psychiatry, v. 10, n. 1, p. 1-11, 2020.


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